Com
apenas 16 anos de idade, David tentava ganhar a vida em Nova York longe da casa
dos pais, vendendo enciclopédias de porta em porta. Mas, bastava que as donas de
casa o vissem com os livros debaixo do braço para já dizerem: “Não estou
interessada. Obrigada.”
Era
o final do século XIX e a situação econômica dos Estados Unidos não ia nada
bem. Havia ameaça de recessão, muitos desempregados na rua e o dinheiro andava curto.
Se
ao menos elas me ouvissem, tenho certeza de que se interessariam pelos livros –
resmungava David para um amigo farmacêutico, proprietário da drogaria na
esquina de sua pensão.
Mais
velho e experiente, o homem aconselhava:
-
David, mulheres não querem saber de livros. Elas só pensam numa coisa: ficar
mais bonitas e atraentes.
Observando
os produtos expostos no balcão da farmácia, o rapaz pensou alto:
- E
se eu oferecer algum brinde, sei lá, um perfume, será que elas topam ver meus
livros?
Podia
dar certo. Para ajudar o amigo, o farmacêutico misturou diversos ingredientes
até chegar a uma fragrância que ambos julgaram agradável. David comprou, então,
pequenos frascos de vidro e os preencheu com o líquido. No dia seguinte,
animado, saiu mais cedo do que de costume. Bateu na primeira casa. Assim a
mulher apareceu, ele falou rápido:
- A
senhora aceita uma amostra grátis de um delicioso perfume?
-
Perfume? – quis saber a mulher, interessada.
Enquanto
ela se entretinha com a fragrância, colocava atrás das orelhas, nos pulsos, o
rapaz aproveitou para falar de enciclopédias. Destacou o conteúdo primoroso, as
ilustrações elaboradas, o acabamento de luxo. Disse que os livros ajudariam os
filhos na escola, o marido no trabalho e a mulher nas reuniões sociais. De
repente, como se o encanto tivesse se quebrado, a senhora voltou a si, fechou o
frasco e disse para o rapaz com voz séria:
-
Lamento, moço, mas não posso comprar livros agora. Até gostaria, mas o
orçamento está apertado. Adorei o perfume. Posso ficar com ele?
David sentiu um misto de alegria e decepção. Alegria porque seu plano tinha dado
certo: aquela cliente o ouviu mais do que qualquer outra até então. Decepção
porque, afinal, não conseguiu vender a bendita enciclopédia.

